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DESCOBERTO SEGUNDO BATISTÉRIO PALEOCRISTÃO EM MÉRTOLA

Batisterio paleocristão descoberto em Mértola

Batisterio paleocristão descoberto em Mértola

Arqueólogos descobriram nas “entranhas” de Mértola, no Alentejo, um segundo batistério do período paleocristão, o que confirma a existência de duas comunidades cristãs diferentes naquela época na vila, uma católica e outra possivelmente monofisita.

O batistério, descoberto na alcáçova do castelo, a 50 metros do primeiro, é também dos princípios do Cristianismo, entre finais do século V e inícios do século VI, quando o ritual do batismo “implicava um banho de imersão”, explicou à agência Lusa o arqueólogo Virgílio Lopes, do Campo Arqueológico de Mértola (CAM).

O “belíssimo achado” seria de “grande luxo” e os vestígios estão num estado de conservação “bastante bom”, indicou, referindo que a piscina batismal achada e já escavada tem mais de quatro metros de largura e metro e meio de profundidade, o que aponta para um “grande” batistério.

“É um dos mais importantes que conhecemos em ambiente arqueológico” e “nada fica a dever” aos batistérios conhecidos no Mediterrâneo, frisou, indicando que o estado de conservação e o volume do batistério colocam-no “muito próximo” dos “mais luxuosos” conhecidos na Europa e que servem de “modelo de referência” para os outros.

Além da piscina batismal, foram achados vestígios da hipotética abóbada do batistério, como colunas em mármore e fragmentos de um revestimento a frescos, os quais indicam que foi construído por “gente com grande poderio económico”.

O arqueólogo e diretor do CAM, Cláudio Torres.

O arqueólogo e diretor do CAM, Cláudio Torres.

O volume do batistério é “assustador para a pequena terra de Mértola”, disse, frisando que dois batistérios na mesma zona “não é frequente” no Mediterrâneo.

A existência de “dois grandes batistérios”, um perto do outro, confirma que, em Mértola, no período paleocristão, “havia, hipoteticamente, duas comunidades de cristãos”, que professavam “cristianismos diferentes” e “não se entendiam”, uma católica e outra monofisita ou donatista e ligada às correntes cristãs do Norte de África, explicou à Lusa o arqueólogo e diretor do CAM Cláudio Torres.

Segundo Cláudio Torres, no período paleocristão, nas grandes cidades do Mediterrâneo ocidental, as comunidades cristãs dividiam-se sobretudo entre católicos e monofisitas.

Os católicos, ligados à Igreja de Roma, acreditavam na Santíssima Trindade, doutrina que professa um Deus único, mas repartido entre Pai, Filho e Espírito Santo, e os monofisitas, hostis àquela igreja, rejeitavam a Trindade e defendiam que Jesus Cristo, como encarnação de Deus, tinha uma só natureza.

O segundo batistério confirma ainda que a comunidade monofisita que havia em Mértola, como atestam lápides funerárias encontradas na basílica paleocristã descoberta na vila, “não era uma pequena comunidade” de cristãos não oficiais, mas “uma comunidade fortemente implantada na zona”, disse.

Por isso, a islamização de Mértola e do sul da Península Ibérica passou “mais pela conversão” ao Islão, cujos princípios religiosos eram próximos dos professados pelos monofisitas, explicou.

Por outro lado, não há registos documentais de ter havido um bispo católico em Mértola, mas a existência dos batistérios indica que teria de haver, pelo menos, um bispo, porque, no século VI, os batismos só eram realizados por bispos, contou.

Se havia um bispo, Mértola não era uma terra qualquer, disse, referindo que as confirmações despertaram “interesse e curiosidade” do Pontifício Instituto Bíblico de Roma.

No final de abril, uma delegação de alunos e professores do instituto visita Mértola para ver os batistérios e discutir questões religiosas e históricas levantadas pela nova descoberta.

/Lusa

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