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Adoração da Cruz [III]

Já tendo o tempo cumprido da sua vida mortal,

só pelo amor impelido, numa oblação sem igual,

na dura cruz foi erguido, nosso Cordeiro Pascal!

Somente esta estrofe encerra em si o resumo da grande obra que assombrou o céu. São João nos diz o que está transmitido nestas linhas: antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que tinha chagado a sua hora, hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim (Jo 13,1). Passado o tempo conveniente para a semeadura da Vontade Divina para os homens, Cristo, o Filho de Deus, enviado do Pai, age por extremo amor no ato definitvo para nossa salvação.

Este amor eterno de Deus pelos homens, que Nele é perfeito, sem reservas nem sentimento retribucionista, é o grande amor que este Jesus, Cordeiro Pascal, quer formar em cada indivíduo. Seu erguimento no madeiro da cruz, acima dos olhos de todos, revela a dimensão que deseja que o ser humano tenha em seu amor a Deus e aos irmãos: uma dimensão sem limites, que é capaz de entregar a vida, gastar a vida. Aquele que consegue viver este amor de Cristo não vive mais para si, pois o amor leva a pessoa que ama, a sempre estar fora de si, pois o amor encontra sua expressão fora do indivíduo.

Analogamente podemos dizer que este ato do amor que age no ser humano, que o faz sair de si em procura do outro, é correspondente a relação amorosa da comunidade trinitária, onde o Pai ama o Filho, o Filho ama o Pai, e os dois agindo neste intercâmbio de amor eterno, perfeito, transbordam este amor na Pessoa Divina do Espírito Santo. O Amor Personificado da relação divina.

Cravaram-lhe os cravos tão fundo, seu lado vão traspassar;

já corre o sangue fecundo, a água põe-se a brotar;

estrelas, mar, terra e mundo, a tudo podem lavar!

Este amor perfeito e sem limites de Jesus, o leva a expressar-se no alto do madeiro. Lá encontra o escárnio e o desprezo do ser humano pelo amor, ignorância do ato amoroso de Deus na busca de suas ovelhas perdidas pelo pecado. Movidos pelo ódio ao Amor, o agridem e tentam o desvestir da dignidade humana que mesmo sendo possível, não o desfiguraria em sua imagem divina. Cravam-lhe pregos nas mãos e nos pés, sinal de que o homem, imerso no pecado, não suporta ver a liberdade do Amor, precisa prendê-lo em algo, ter a segurança de que tal Amor não andará livre pelos caminhos do mundo.

Igualmente ferem seu lado que imediatamente libera sangue e água, líquido fecundo, que banha a terra, mas inunda de esperança os que temem a Deus e procuram diante da dor do Cristo na cruz o sinal da Salvação. A criação foi lavada pelo sangue e água de Cristo, toda ela aguardava ansiosamente o dia da regeneração pelo sangue do Cordeiro.

Inclina, ó árvore, os ramos, acolhe o teu criador;

para o que em ti nós pregamos, do tronco abranda o rigor;

para o rei que hoje adoramos sejas um leito de amor!

Nosso amor a Cristo nos impele a tentarmos reparar os maltratos sofridos por Jesus. Em realidade, sabemos que seu sacrifício foi necessário para nossa salvação, mas ao nos colocarmos diante da cruz sempre aparece-nos o anseio de pedir perdão a Deus por termos levado Cristo ao padecimento na cruz.

O desejo de reparação pela paixão de Cristo, nasce de nossa consciência de que foram nossos pecados que levaram o Cristo a sofrer tudo  o que passou até a hora de sua morte. O pecado é o real motivo propulsor que levou Nosso Senhor ao sofrimento, de modo que em nosso desejo de reparação devemos sempre o consolidar no firme propósito de não mais ceder ao pecado, pois se ainda o fazemos estamos a cada dia contribuindo para a crucificação de Jesus, e assim como sua Eucaristia é atualizada na Santa Missa, Seu sofrimento também é trazido novamente a cada pecado que o ser humano comete.

Por isso, o hino pede ao lenho que seja o leito de amor do Cristo. Enquanto a humanidade inteira estiver conivente com o pecado, Cristo permance junto a Sua cruz.

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