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O abismo que nunca acaba

Certos momentos que somos obrigados a passar não deveriam ser registrados em nossa memória. Um desses acabo de viver. Me sinto ofegante apenas em lembrar do ocorrido naquele assombroso hospital de uma cidade de interior.

São mais ou menos dezenove horas da noite, um dia de inverno e como rege esta estação a noite já vem adiantada com seus ruidos próprios, singulares e arrepiantes! Estaciono o carro e logo avisto a porta de entrada e junto dela uma magrela alta com cara de cansada, estava vestida de enfermeira, então me aproximei para lhe perguntar onde se encontrava meu amigo. Para minha surpresa, ela se adiantou e logo me disse:

- Estávamos lhe esperando.

Este meu amigo gostava de aventuras, principalmente quando se tratava de desbravar matas ou cavernas em busca de coisas perdidas ou algo que fosse de valor, sempre disse que ele havia assistido muitos filmes de Indiana Jones. Mas pelo que me disseram ao telefone, quando estava conhecendo uma caverna nesta cidadezinha que tinha fama de muito rica em pedras de valor, foi surpreendido por algo que o deixou em choque levando a cair no chão onde fez um grave ferimento na cabeça. Agora estava numa espécie de UTI deste hospital, sendo constantemente monitorado.

A enfermeira me acompanhou até o quarto 122, onde somente estava ele. Aliás, naquele hospital parecia existir somente ele de paciente, pois não conseguia avistar mais ninguém por onde passei. Estava entrando quando a mesma enfermeira pegou-me pelo braço e falou:

- Cuidado, ele esta muito mal, não pode fazer nenhum esforço, sua vida esta por um fio.

Aquilo foi impactante para mim. Ao entrar vi que realmente seu estado não era bom, mas percebi que estava de olhos abertos e que me reconheceu. Então me aproximei e peguei em sua mão. Ele esboçou um sorriso e então senti que queria dizer-me algo.

- Não fale – lhe disse. Mas ele insistia num gesto com a mão direita. Era como se estivesse empurrando alguém. Ou será que queria dizer que alguém o empurrou?!

Fez o mesmo gesto várias vezes, mas não decifrei ao certo. Então cansou e deitou a cabeça e começou um sono estimulado pelos remédios. Logo que a enfermeira entrou falei do gesto e ela disse que o fazia sempre que alguém entrava no quarto, mas ela não tinha a mínima idéia do que poderia ser.

Sentei numa poltrona que estava ali, próxima a cama e adormeci. Mas não por muito tempo. Logo escuto um barulho forte, abro os olhos e vejo meu amigo caido no chão… que susto! As enfermeiras chegaram e o tentaram levantar e quando uma delas tentou colocar logo os aparelhos gritou assustada:

- Esta morto!

- O quê? – disse sem acreditar. Elas ficaram imóveis por um tempo, até que uma delas saiu falando que ia informar o médico e colcoar nos laudos a hora da morte e o motivo. Outra saiu dizendo que ia arrumar a sala de limpeza do corpo para o encaminhar a funerária.

Fiquei ali, sozinho com o corpo de meu amigo. Nunca havia ficado de frente com alguém sem vida, sempre evitei esses encontros desde a juventude. Agora era posto abruptamente diante do cadáver que a alguns minutos respirava e pensava como eu. Como posso nunca ter passado por isso? Neste momento vi a estupida “força” dos homens que sonham em viver como se tivessem duzentos anos pela frente.

Nunca entendi aquele gesto de meu amigo no leito do hospital, mas consegui entender o gesto final da vida, aquele em que somos empurrados do abismo de nossa existência material para a eternidade, abismo que nunca acaba.

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