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Um padre

Noticia comentada- logo animado Escreveu Luiz Antonio de Assis Brasil no Segundo Caderno da Zero Hora de 26/04/2010.

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Deu no clicRBS: o padre chama-se Martinho Kavaya. É sacerdote, natural de Angola. Viveu em Pelotas por sete anos para adquirir conhecimento e servir em seu ministério. Atuou como vigário na catedral São Francisco de Paula, estudou e defendeu tese. Hoje é doutor em Educação. Nas fotos, vê-se que é homem ainda no vigor da idade, sorriso verdadeiro, cheio de esperanças.
Está voltando para o seu país, e leva consigo mais de 40 mil livros que lhes foram doados pelas comunidades pelotense e gaúcha. Leva, portanto, uma biblioteca inteira, a fazer inveja a muitos municípios brasileiros. O Exército Nacional ajudou-o a acomodar todo esse material num contêiner, e o destino é a cidade de Ganda. Padre Martinho está feliz. Volta para Angola com a alma e a mente disponíveis para ajudar, apoiar, repartir. Volta, enfim, imbuído do verdadeiro espírito missionário.
Martinho, na infância, viveu a crua realidade da guerra, e seu passado registra um episódio por ele mesmo narrado: “Vi meu avô e minha avó serem decapitados na minha frente quando era criança, e prometi que mudaria meu país através da educação”. Promessas assim não se esquecem, e o Padre Martinho transformou sua dor em gesto concreto de solidariedade.
O lado raro, disso tudo, é que a cidade de Ganda, para onde vai essa grande biblioteca, para onde volta o Padre Martinho e suas esperanças, situa-se justo na província de Benguela que, bem e tristemente o sabemos, foi um dos mais atuantes empórios do comércio negreiro destinado ao Brasil. De Benguela importávamos seres humanos reduzidos à situação animal; a retribuição que damos ora damos, por via do Padre Martinho, é em livros, cultura e saber. Não se trata de compensar males passados, que esses são incompensáveis, mas trata-se de um ato simbólico de reparação.
Vá, Padre Martinho. Dê o testemunho de seu tempo e de sua palavra.
Num momento crítico, em que a Igreja Católica é acossada por uma torrente de insultos, muitos esquecem de exemplos iguais a este, operosos, saudáveis e construtivos, que honram a nossa espécie e dignificam a instituição a que serve o Padre Martinho.

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