Não importa fingir-se de tolo
O mullah Nasrudin (personagem central de quase todas as histórias da tradição sufi) já se havia transformado numa espécie de atração da feira principal da cidade. Quando se dirigia até ali para pedir esmolas, as pessoas costumavam lhe mostrar uma moeda grande, e uma pequena: Nasrudin sempre escolhia a pequena.
Um senhor generoso, cansado de ver as pessoas rirem de Nasrudin, explicou-lhe:
“Sempre que lhe oferecerem duas moedas, escolha a maior. Assim terá mais dinheiro, e não será considerado idiota pelos outros”.
“O senhor deve ter razão”, respondeu Nasrudin. “Mas se eu sempre escolher a moeda maior, as pessoas vão deixar de me oferecer dinheiro, para provar que sou mais idiota que elas. Desta maneira, não poderei mais ganhar meu sustento. Não há nada de errado em se passar por tolo, se na verdade o que você está fazendo é inteligente”.
Somos todos responsáveis
A comitiva passou pela rua; soldados fortemente armados levavam um condenado para a forca.
“Este homem não prestava”, comentou um discípulo com Nasrudin. “Uma vez dei-lhe uma moeda de prata para ajudá-lo a levantar-se de novo na vida, e ele não fez nada de importante”.
“Talvez ele não preste, mas pode estar agora caminhando para forca por sua causa”, contestou o mestre. “É possível que tenha utilizado a esmola para comprar um punhal, que terminou usando no crime cometido; então, suas mãos também estão ensangüentadas -porque, ao invés de ajudá-lo com amor e carinho, preferiu dar-lhe uma esmola e livrar-se de sua obrigação”.
Cada coisa em seu lugar
A festa reuniu todos os discípulos de Nasrudin. Comeram e beberam por muitas horas, e conversaram sobre a origem das estrelas. Quando já era quase madrugada, todos se prepararam para voltar as suas casas. Restava um belo prato de doces sobre a mesa: Nasrudin obrigou os seus discípulos a comê-lo.
Um deles, porém, se recusou.
“O mestre está nos testando”, disse. “Quer ver se conseguimos controlar nossos desejos”.
“Você está enganado”, respondeu Nasrudin. “A melhor maneira de dominar um desejo, é vê-lo satisfeito. Prefiro que vocês fiquem com o doce no estômago - que é seu verdadeiro lugar - do que no pensamento, que deve ser usado para coisas mais nobres”.
A reflexão
Do livro O caminho da nobreza Sufi:
“Sempre receba aquele que o procura, e não corra atrás de quem o rejeita. Desta maneira, você estará criando um laço de harmonia com o seu semelhante”.
“Quando vemos alguém muito ansioso para mostrar como é bom e compreensivo, precisamos testá-lo com severidade. Porque ele busca aplauso para seus gestos, e pode ter perdido completamente a humildade”.
Nesse aniversário da morte de um dos grandes gênios da literatura que nossa nação já teve, apresento um breve histórico desse homem tão ilustre para nossa bagagem cultural. *** Mário Raul de Morais Andrade ( São Paulo , 9 de outubro de 1893 — São Paulo, 25 de fevereiro de 1945 ) foi um poeta , romancista , crítico de arte , musicólogo , professor universitário e ensaísta brasileiro . É reconhecido por críticos como um dos mais importantes intelectuais brasileiros do século XX. Notável polímata , Mário de Andrade liderou o movimento modernista no Brasil e produziu um grande impacto na renovação literária e artística do país, participando ativamente da Semana de Arte Moderna de 22 , além de se envolver (de 1934 a 37) com a cultura nacional trabalhando como diretor do Departamento Municipal de Cultura de São Paulo. Mário nasceu em São Paulo e construiu praticamente toda a sua vida na metrópole. Na cidade, estudou e também lecionou por muitos anos, desde cedo demonstrando sua...


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